A experiência de muitos docentes com ensino remoto revela um padrão recorrente: telas desligadas, microfones silenciados e pouca interação visível. Para disciplinas que dependem de aprendizagem ativa, como empreendedorismo e práticas colaborativas, esse cenário reduz significativamente o potencial do curso. Uma alternativa eficaz é projetar a participação, não apenas solicitá-la.
Ferramentas como o Miro, um quadro digital colaborativo lançado em 2011, facilitam visualização e co-criação em tempo real. Seu uso tem crescido em contextos de trabalho e ensino remoto por oferecer templates, frames, notas adesivas digitais, votação e indicadores de presença por meio dos cursores com nomes. Integradas a práticas pedagógicas, essas funcionalidades tornam a participação explícita e observável.
Transformar presença passiva em contribuição ativa exige mudança no desenho instrucional. Em cursos práticos, incorporar o quadro colaborativo como requisito de frequência e participação deixa claras as expectativas e permite identificar quem contribui e quem não contribui. Ferramentas visuais também favorecem a compreensão conceitual ao registrar o processo coletivo, criando uma memória do curso composta por notas, esquemas e decisões.
Miro como laboratório de atividade
Na prática, o quadro pode ser organizado como um laboratório coletivo. Cada equipe recebe um frame com instruções objetivas. O docente acompanha o progresso em tempo real, observa os cursores, oferece feedback e redireciona quando necessário. As atividades podem começar com uma pergunta aberta, exigindo que cada estudante registre ao menos uma contribuição em formato de post-it digital.
Recursos como votação ajudam a priorizar ideias antes da discussão plenária. Essa configuração favorece dinâmicas de resolução de problemas e aproxima o trabalho remoto da experiência de colaboração presencial.
Modelo de sessão de 90 minutos com Miro
Uma sessão pode ser estruturada em etapas claras. A preparação envolve escolher ou adaptar um template, criar um frame por equipe com instruções e configurar timers e votação. O aquecimento inicial pode incluir um check-in rápido, em que cada aluno registra um post-it com aprendizados ou dúvidas da aula anterior.
Após uma breve revisão, o conteúdo principal é apresentado de forma concisa, seguido de atividades práticas em grupo. O docente acompanha os quadros, orienta os grupos e, ao final, promove uma reflexão coletiva com apresentações curtas e feedback estruturado. O encerramento deve deixar claras as próximas entregas, com objetivos, formato, critérios de avaliação e prazos.
Uso de GenAI na preparação das atividades
Sistemas de geração de texto, como ChatGPT, Gemini ou Claude, podem apoiar o docente na elaboração de prompts, refinamento de instruções e adaptação de exercícios a diferentes níveis de aprendizagem. Quando usados com critério, funcionam como apoio na preparação do material, sem substituir a mediação pedagógica e a avaliação humana.
Boas práticas para manter engajamento
Alguns cuidados ajudam a sustentar a participação. Instruções devem ser claras e permanecer visíveis no quadro durante toda a atividade. O monitoramento ativo do docente sinaliza presença e direciona o trabalho. Timers visíveis ajudam a manter ritmo e foco, e a transparência na avaliação reduz ambiguidades quando a participação conta para a nota.
Limites e cuidados práticos
Há desafios relevantes. Diferenças de acesso à internet e a dispositivos, questões de acessibilidade, privacidade de dados e integridade acadêmica precisam ser consideradas. No contexto brasileiro, é importante observar variações de conectividade e atender às exigências da LGPD ao compartilhar links e armazenar registros de atividade.
Para evitar exclusões, o uso de quadros colaborativos deve ser combinado com alternativas assíncronas ou offline sempre que possível.
Avaliação e governança do uso
Para adoção em escala institucional, é recomendável definir políticas de governança, incluindo padrões de templates, orientações de proteção de dados, critérios de avaliação e programas de capacitação docente. Testes iterativos e coleta contínua de feedback dos estudantes ajudam a ajustar formatos e identificar o que funciona melhor em cada disciplina.
Conclusão
O uso do Miro, quando integrado a um desenho instrucional intencional e apoiado por GenAI na preparação, amplia as possibilidades de participação, colaboração e registro no ensino remoto. O valor pedagógico, contudo, depende da mediação do docente e de objetivos claros.
Com planejamento, critérios de avaliação transparentes e atenção à equidade e à privacidade, é possível reduzir a sensação de aulas expositivas passivas e transformar sessões remotas em espaços efetivos de co-criação e aprendizagem ativa.













