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Dia de Ada Lovelace: a presença das mulheres nas carreiras de tecnologia

Por Redação ·

Dia de Ada Lovelace: a presença das mulheres nas carreiras de tecnologia

Em setembro de 1843, uma revista científica de Londres publicou a tradução de um artigo sobre a Máquina Analítica, o computador mecânico projetado por Charles Babbage e nunca construído. A tradutora assinava apenas com as iniciais A.A.L. e havia acrescentado ao texto original sete notas, identificadas pelas letras A a G, que somadas ficaram cerca de três vezes mais longas que a tradução. Nelas estava o que muitos historiadores consideram o primeiro programa de computador publicado. A autora era Augusta Ada King, condessa de Lovelace, e é o nome dela que batiza o Dia de Ada Lovelace, celebrado na segunda terça-feira de outubro, que em 2026 cai em 13 de outubro. A data serve de pretexto para uma discussão que continua atual: a presença das mulheres na tecnologia e o que ainda dificulta a entrada e a permanência delas na área.

Quem foi Ada Lovelace

Ada nasceu em Londres em 10 de dezembro de 1815, filha do poeta Lord Byron e de Anne Isabella Milbanke. Os pais se separaram pouco depois do nascimento, e a mãe incentivou uma formação em matemática e ciências, pouco comum para meninas da época. Entre seus tutores esteve a cientista Mary Somerville, que a apresentou a Charles Babbage em junho de 1833, quando Ada tinha 17 anos.

A convivência com Babbage levou ao trabalho que a tornaria conhecida. Em 1842, o engenheiro italiano Luigi Menabrea publicou em francês um artigo baseado em uma palestra de Babbage sobre a Máquina Analítica. Ada foi convidada a traduzi-lo para o inglês e, ao longo de nove meses, entre 1842 e 1843, produziu a tradução e as notas.

A mais famosa delas, a Nota G, descreve passo a passo como a máquina poderia calcular os chamados números de Bernoulli, uma sequência usada em matemática. É esse procedimento que costuma ser apontado como o primeiro algoritmo escrito para ser executado por uma máquina. Mais importante, talvez, foi a visão que Ada registrou nas notas: a de que uma máquina capaz de manipular símbolos segundo regras poderia ir além dos números e trabalhar, por exemplo, com música. Essa percepção antecipou em mais de um século a ideia de computador de uso geral.

Ada morreu em 27 de novembro de 1852, aos 36 anos. Seu trabalho ficou pouco conhecido por décadas e só foi amplamente reconhecido no século 20, quando a computação moderna tornou evidente o alcance do que ela havia escrito.

Como surgiu a data

O Dia de Ada Lovelace foi criado em 2009, no Reino Unido, pela jornalista e ativista Suw Charman-Anderson. Começou como uma mobilização em blogs para destacar mulheres com trabalhos relevantes em ciência, tecnologia, engenharia e matemática, as áreas conhecidas pela sigla STEM. Com o tempo, ganhou eventos presenciais, palestras e maratonas de edição da Wikipédia dedicadas a biografias de cientistas mulheres.

Em 2022, a organização anunciou que aquele seria o último evento principal por falta de financiamento. No ano seguinte, a Royal Institution, em Londres, assumiu a realização da edição de 2023. Atualmente, a data é lembrada por universidades, museus, empresas e grupos de profissionais em vários países, inclusive no Brasil, com atividades que costumam se estender por outubro e novembro.

Uma presença que já foi maior

A história da computação tem mais mulheres do que o imaginário popular sugere. Na década de 1940, seis matemáticas foram as primeiras programadoras do ENIAC, um dos primeiros computadores eletrônicos, nos Estados Unidos. Grace Hopper, que trabalhou no Harvard Mark I e depois na Univac, criou um dos primeiros compiladores e teve papel importante no desenvolvimento da linguagem Cobol, ainda usada em sistemas bancários e governamentais.

Nas primeiras décadas, programar era visto como tarefa administrativa e muitas vezes atribuído a mulheres. À medida que a profissão ganhou prestígio e salários maiores, o perfil mudou. Nos Estados Unidos, a participação feminina entre os formados em ciência da computação chegou a cerca de 37% em meados da década de 1980 e depois caiu de forma contínua, movimento que pesquisadores associam, entre outros fatores, à popularização do computador pessoal como produto voltado a meninos.

O retrato atual

Os dados globais mostram uma distância persistente. Segundo a Unesco, as mulheres representam apenas 35% dos formados em cursos de STEM, proporção que não se alterou em dez anos. A ONU registra que, em 2022, 31,1% dos pesquisadores no mundo eram mulheres e que, em inteligência artificial, apenas uma em cada cinco profissionais, 22%, é mulher.

A diferença aparece em dois momentos. O primeiro é a entrada: menos meninas escolhem cursos de computação, engenharia e áreas afins, muitas vezes por influência de estereótipos que começam na infância, pela ausência de referências femininas e pela percepção de que aquele ambiente não é para elas. O segundo é a permanência: mesmo quando entram, muitas deixam a área ao longo da carreira.

O que dificulta a permanência

As razões apontadas em estudos e relatos de profissionais se repetem:

No Brasil, a Lei nº 14.611, de 3 de julho de 2023, trata da igualdade salarial e de critérios remuneratórios entre mulheres e homens. Entre outras medidas, determina que empresas privadas com 100 ou mais empregados publiquem relatórios semestrais de transparência salarial, com dados que permitem comparar salários e a ocupação de cargos de direção, gerência e chefia por mulheres e homens.

Iniciativas de formação e mentoria

Parte do esforço para ampliar a presença feminina acontece antes do mercado de trabalho. No Brasil, o Programa Meninas Digitais, da Sociedade Brasileira de Computação, começou em 2011 e desde 2015 é um programa nacional da entidade. A proposta é aproximar estudantes dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio da computação, com oficinas, minicursos e conversas com profissionais da área.

Há também cursos gratuitos e programas de formação acelerada voltados a mulheres que querem migrar de carreira, comunidades de desenvolvedoras e grupos de afinidade dentro das empresas. O dia 11 de fevereiro, Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, instituído pela ONU, também mobiliza ações de incentivo em escolas e universidades.

Nas empresas, algumas práticas aparecem com frequência entre as que têm resultado:

Por que isso importa para o negócio

A discussão sobre mulheres na tecnologia costuma ser tratada como pauta de responsabilidade social, mas tem efeitos diretos sobre o produto. Sistemas de reconhecimento de voz, de imagem e de linguagem são treinados com dados e testados por pessoas. Equipes pouco diversas têm mais chance de não perceber vieses que afetam parte dos usuários. Em um mercado que disputa profissionais qualificados, deixar metade da população fora da base de recrutamento também é uma limitação prática.

Ada Lovelace escreveu suas notas em um tempo em que mulheres não podiam frequentar universidades na Inglaterra. As barreiras atuais são outras, menos explícitas, mas os números mostram que ainda existem. O dia que leva o nome dela é um convite para olhar para esses números dentro de cada empresa, e não apenas para celebrar pioneiras.

Fontes e referências

Perguntas frequentes

Quando é o Dia de Ada Lovelace?

A data é celebrada anualmente na segunda terça-feira de outubro. Em 2026, cai em 13 de outubro.

Por que Ada Lovelace é considerada a primeira programadora?

Porque, em uma das notas publicadas em 1843 sobre a Máquina Analítica de Charles Babbage, ela descreveu passo a passo um procedimento para a máquina calcular os números de Bernoulli, considerado o primeiro algoritmo publicado para execução por uma máquina.

Qual é a participação das mulheres nas áreas de tecnologia?

Segundo a Unesco, as mulheres são 35% dos formados em cursos de ciência, tecnologia, engenharia e matemática no mundo. A ONU aponta que, em inteligência artificial, cerca de 22% dos profissionais são mulheres.

O que as empresas podem fazer para reter mulheres em TI?

Entre as medidas mais citadas estão processos seletivos estruturados, programas de mentoria e patrocínio, políticas de flexibilidade e de retorno da licença-maternidade, transparência salarial e canais eficazes contra o assédio.

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