Automatizar um processo confuso costuma produzir um processo confuso mais rápido. Quando ninguém sabe ao certo quantas etapas existem, quem aprova o quê ou o que fazer quando falta um documento, a ferramenta de automação apenas reproduz a desordem, agora com menos gente olhando. Por isso, antes de contratar um software ou montar um fluxo automático, vale um passo menos glamoroso: escrever como o trabalho é feito. O formato mais conhecido para isso é o procedimento operacional padrão, o POP, e montá-lo é mais simples do que parece.
Por que documentar antes de automatizar
Um POP é uma descrição detalhada das operações necessárias para realizar uma tarefa, um roteiro padronizado que permite que pessoas diferentes façam a mesma atividade do mesmo jeito. O conceito nasceu na indústria e na área da qualidade, mas se aplica a qualquer rotina recorrente: fechamento de caixa, cadastro de clientes, admissão de funcionários, emissão de notas, atendimento de chamados.
Para quem pretende automatizar, o documento cumpre três funções:
- Revela o processo real, que quase sempre difere do que os gestores imaginam, com etapas informais, planilhas paralelas e exceções frequentes.
- Padroniza antes de acelerar, porque se cada pessoa executa de um jeito, não há um fluxo único para automatizar.
- Serve de especificação, já que o POP diz, em linguagem de negócio, o que a automação precisa fazer, em que ordem e com que regras.
Passo 1: escolha o processo e defina onde ele começa e termina
Comece por um processo recorrente, com volume relevante e que gere reclamações ou retrabalho. Dê a ele um nome objetivo, com verbo ("emitir nota fiscal de serviço", "aprovar pedido de compra") e defina os limites: qual evento dispara o processo e qual resultado indica que ele terminou.
Delimitar evita o erro mais comum do mapeamento, que é tentar descrever a empresa inteira de uma vez. "Compras" é uma área; "solicitar, cotar e aprovar uma compra de material de escritório" é um processo que cabe em um documento.
A fonte mais confiável sobre um processo é quem o executa todos os dias. Três técnicas se combinam bem:
- Entrevista curta com as pessoas envolvidas, pedindo que descrevam o passo a passo com exemplos reais.
- Observação de uma ou duas execuções, anotando o que é feito, e não o que deveria ser feito.
- Rastreamento de um caso, acompanhando um pedido, uma nota ou um chamado do início ao fim, incluindo e-mails, planilhas e mensagens trocadas.
Nessa fase, registre tudo, inclusive o que parece errado ou ineficiente. O objetivo é retratar o processo atual, que no jargão de gestão de processos costuma ser chamado de "como é". A versão melhorada, o "como deve ser", vem depois.
Passo 3: registre entradas, saídas e responsáveis
Com as etapas em mãos, organize a visão geral. A Controladoria-Geral da União descreve o mapeamento de processos justamente como a capacidade de compreender e registrar o funcionamento de um processo, representando cada etapa em termos de entradas, saídas e ações.
Uma ferramenta simples para essa visão é o SIPOC, sigla em inglês para fornecedores, entradas, processo, saídas e clientes. Em cinco colunas, ela responde:
- quem fornece o que o processo precisa (fornecedores, internos ou externos);
- o que entra (documentos, dados, materiais, solicitações);
- quais são as grandes etapas, em geral de quatro a sete;
- o que sai (produtos, documentos, registros, decisões);
- quem recebe o resultado (clientes, também internos ou externos).
Para cada etapa, identifique dois papéis que costumam ser confundidos: quem executa e quem responde pelo resultado. Nem sempre são a mesma pessoa. Uma matriz de responsabilidades, como a conhecida RACI (quem executa, quem responde, quem é consultado e quem é informado), ajuda a tornar isso explícito, especialmente em processos que cruzam áreas.
Passo 4: desenhe o fluxo
Um desenho torna visíveis coisas que o texto esconde: idas e vindas, esperas, decisões sem critério e etapas duplicadas. Para processos simples, um fluxograma com caixas, setas e losangos de decisão resolve. Organizar o desenho em raias, uma para cada área ou papel, mostra onde o trabalho muda de mãos, pontos em que costumam ocorrer atrasos e perdas de informação.
Para processos mais complexos ou que serão automatizados em plataformas de gestão de processos, a notação mais difundida é a BPMN (Business Process Model and Notation), mantida pelo Object Management Group, o OMG. Ela padroniza símbolos para eventos, tarefas, decisões e mensagens, o que facilita a comunicação entre as áreas de negócio e de tecnologia. Órgãos públicos brasileiros, como a CGU, adotam a BPMN em seus guias de modelagem.
O fluxo mostra o caminho; o POP explica como percorrê-lo. Um modelo enxuto costuma ter os seguintes campos:
- Nome e código do procedimento, com número de versão e data.
- Objetivo: para que serve o processo e por que ele importa.
- Escopo: onde começa, onde termina e a quem se aplica.
- Responsáveis: quem executa, quem aprova e quem mantém o documento atualizado.
- Entradas e pré-requisitos: documentos, dados, acessos e sistemas necessários.
- Etapas: numeradas, com verbo no início ("conferir o valor do pedido com a cotação aprovada"), indicando o sistema usado e o registro gerado.
- Regras de decisão: critérios claros, como "compras acima de determinado valor exigem aprovação da diretoria".
- Exceções: o que fazer quando falta um documento, quando o sistema está fora do ar ou quando o responsável está ausente.
- Registros e indicadores: o que precisa ficar documentado e como medir o desempenho, por exemplo prazo médio e taxa de retrabalho.
- Documentos de referência: políticas, formulários e outros POPs relacionados.
Escreva para quem vai executar, em frases curtas e sem ambiguidade. Sempre que possível, peça a um executante que revise o texto antes da versão final.
Passo 6: teste o documento
O melhor teste de um POP é entregá-lo a alguém que nunca executou a tarefa e observar. Cada dúvida da pessoa aponta um trecho a reescrever. Se ela precisar perguntar a um colega, falta informação no documento.
Como usar o POP para decidir o que automatizar
Com o processo documentado e padronizado, fica muito mais fácil identificar os candidatos à automação. Uma análise etapa por etapa pode considerar os seguintes critérios:
- Frequência e volume: tarefas repetidas muitas vezes por dia ou por mês tendem a trazer mais retorno.
- Regras claras: etapas que seguem critérios objetivos ("se o valor for maior que X, enviar para aprovação") são boas candidatas; as que dependem de julgamento caso a caso, nem tanto.
- Dados digitais e estruturados: se as entradas chegam em formulários ou sistemas, a automação é mais simples do que quando dependem de documentos em papel ou de mensagens livres.
- Erros e retrabalho: digitação repetida de dados entre sistemas é fonte clássica de erro e costuma ser a primeira a ser eliminada.
- Esperas: etapas em que o processo fica parado aguardando alguém ver um e-mail podem ganhar com notificações e lembretes automáticos.
- Risco: etapas com impacto financeiro ou legal podem ser automatizadas, mas devem manter aprovação humana e registro de quem decidiu.
Uma lista simples, com cada etapa classificada como "automatizar agora", "automatizar depois" ou "manter manual", vira o ponto de partida de um projeto realista. Muitas vezes, a própria documentação revela ganhos antes de qualquer automação: etapas que podem ser eliminadas, aprovações redundantes ou controles paralelos que ninguém usa.
Mantenha o documento vivo
Um POP desatualizado é pior do que nenhum, porque ensina o jeito errado com aparência de oficial. Defina um responsável pela manutenção de cada procedimento, uma periodicidade de revisão, anual ou sempre que o processo ou o sistema mudar, e um local único de armazenamento, com controle de versões. Quando a automação for implantada, o POP precisa ser atualizado para refletir o novo fluxo, incluindo o que fazer quando a automação falhar.