Golpe usa mais de 40 sites falsos para roubar Apple ID de brasileiros após roubo de iPhone
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"Welcome to the Dungeon". A frase aparecia escondida no setor de inicialização de disquetes infectados, seguida de um endereço em Lahore, no Paquistão, de três números de telefone e de um recado curioso: quem encontrasse o texto deveria entrar em contato para a "vacinação". Era o Brain, detectado pela primeira vez em janeiro de 1986 e considerado o primeiro vírus para o IBM PC e seus compatíveis. Quarenta anos depois, a história dele ajuda a entender como as ameaças digitais mudaram de escala, de motivação e de método, e o que continua igual na forma de se proteger.
O Brain foi escrito pelos irmãos Basit Farooq Alvi e Amjad Farooq Alvi, que mantinham em Lahore uma pequena empresa de informática, a Brain Computer Services. Segundo o relato dado por eles à revista Time, o código nasceu como uma forma de proteger um software médico que desenvolviam contra cópias ilegais. O que deveria ser uma espécie de rastreador de pirataria acabou circulando muito além do controle dos autores.
O funcionamento era simples para os padrões atuais. O vírus substituía o setor de inicialização do disquete por uma cópia de si mesmo, movia o setor original para outra área do disco e marcava alguns setores como defeituosos para esconder o próprio código. Em muitos casos, o rótulo do disquete passava a exibir "©Brain". Quando o computador era iniciado a partir de um disquete infectado, o vírus ficava residente na memória e contaminava os próximos disquetes inseridos.
Há dois detalhes que chamam a atenção. O primeiro é que o Brain evitava discos rígidos de propósito e não apagava dados, o que o tornava discreto: o sintoma mais visível era a lentidão no acesso ao disquete. O segundo é que ele é frequentemente citado como um dos primeiros exemplos de técnicas de ocultação, porque tentava impedir que o usuário percebesse a alteração no setor de inicialização.
Quem busca pelo primeiro vírus de computador encontra respostas diferentes, e todas têm alguma razão. Em 1971, o Creeper, um programa experimental criado na empresa BBN, circulava entre computadores de grande porte da ARPANET exibindo uma mensagem provocativa. Ele é considerado o primeiro worm, e o Reaper, criado para eliminá-lo, é lembrado como o primeiro programa antivírus.
Por volta de 1982, o Elk Cloner, escrito por um estudante do ensino médio nos Estados Unidos, infectava computadores Apple II por meio de disquetes e, de tempos em tempos, exibia um poema na tela. Foi um dos primeiros vírus de microcomputador a se espalhar fora do ambiente em que foi criado. Em 1984, o pesquisador Fred Cohen publicou um trabalho acadêmico que ajudou a consolidar o termo "vírus de computador" e a descrever o fenômeno de forma sistemática.
O lugar do Brain nessa linha do tempo é específico: ele foi o primeiro vírus para a plataforma IBM PC e compatíveis, que rodava o MS-DOS e estava se tornando o padrão dos escritórios. É por isso que o aniversário dele interessa tanto às empresas. A partir dali, o vírus deixou de ser curiosidade de laboratório ou de entusiastas e passou a circular nas máquinas usadas para trabalhar.
Em 1986, a maioria dos computadores pessoais não estava conectada em rede. O que conectava as máquinas eram as pessoas: disquetes trocados entre colegas, programas copiados em universidades, jogos emprestados. O Brain aproveitou esse hábito. Como não destruía arquivos, muitos usuários nem desconfiavam da infecção e continuavam repassando disquetes contaminados.
O resultado surpreendeu os próprios autores. Os irmãos Alvi passaram a receber ligações de pessoas no Reino Unido, nos Estados Unidos e em outros países pedindo que desinfetassem suas máquinas. Em 2011, 25 anos depois, o pesquisador finlandês Mikko Hyppönen viajou ao Paquistão para entrevistá-los para um documentário sobre o caso.
Pouco mais de dois anos depois do Brain, em 2 de novembro de 1988, o worm Morris se espalhou pela internet ainda restrita a universidades e centros de pesquisa. Segundo o FBI, cerca de 6 mil dos aproximadamente 60 mil computadores então conectados foram atingidos em 24 horas. O caso levou à primeira condenação por crime grave nos Estados Unidos com base na Lei de Fraude e Abuso de Computadores, de 1986, e mostrou que um programa autônomo podia paralisar uma rede inteira sem intervenção humana.
Em maio de 2000, o ILOVEYOU chegou às caixas de entrada como uma carta de amor. Era um worm que se espalhava por anexos de e-mail enviados aos contatos da vítima e sobrescrevia arquivos. Infectou dezenas de milhões de computadores com Windows e virou exemplo clássico de engenharia social: o ponto fraco explorado não era uma falha técnica, e sim a curiosidade de quem abria a mensagem.
A virada mais importante das últimas décadas foi econômica. Com o ransomware, o código malicioso passou a sequestrar dados, geralmente por meio de criptografia, e a cobrar resgate para liberá-los. Em maio de 2017, o WannaCry explorou uma vulnerabilidade do Windows para a qual já havia correção disponível e atingiu, segundo as estimativas, mais de 300 mil computadores em cerca de 150 países. Grande parte das vítimas simplesmente não tinha aplicado as atualizações.
Nesse percurso, o perfil do atacante mudou. O autor do Brain deixou nome, endereço e telefone no código. Os grupos atuais operam de forma anônima, vendem acesso a redes invadidas e, em muitos casos, ameaçam divulgar os dados roubados além de bloqueá-los.
Apesar de toda a mudança, as recomendações básicas guardam parentesco direto com as lições dos anos 1980. A Cartilha de Segurança para Internet, mantida pelo CERT.br, reúne os cuidados básicos, aos quais se somam práticas comuns em ambientes corporativos:
O Brain atacava o momento mais sensível de um computador: a inicialização, quando o sistema ainda não tem defesas ativas. Essa preocupação nunca saiu de cena. Mecanismos de inicialização segura presentes nos computadores modernos existem justamente para verificar se o código que roda antes do sistema operacional é confiável.
Há também uma lição sobre confiança. O vírus se espalhou porque as pessoas confiavam nos disquetes que recebiam de colegas. Os ataques atuais exploram a confiança em e-mails de fornecedores, em atualizações de software e em ferramentas de terceiros. Quarenta anos depois, proteger uma empresa continua sendo, em boa parte, decidir em que confiar e verificar essa confiança com frequência.
Não exatamente. Programas autorreplicantes como o Creeper, de 1971, e o Elk Cloner, que infectava o Apple II por volta de 1982, vieram antes. O Brain é considerado o primeiro vírus para o IBM PC e compatíveis, a plataforma que se tornou padrão nos escritórios.
Não. Ele evitava discos rígidos e não apagava dados de forma intencional. O efeito mais perceptível era a lentidão no acesso ao disquete e a perda de alguns kilobytes de espaço e de memória, o que ajudou a infecção a passar despercebida.
O vírus depende de um hospedeiro, como um arquivo ou o setor de inicialização de um disco, e de alguma ação para se espalhar. O worm é um programa autônomo que se propaga sozinho pela rede, como fez o worm Morris em 1988.
É uma das principais, desde que as cópias sejam regulares, fiquem protegidas do acesso do atacante e tenham a restauração testada. Ele deve ser combinado com atualizações, controle de privilégios e cuidado com anexos e links.
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